De mãe para mãe / Depois

Os 100 primeiros dias Os medos não desaparecem, mas encontram seus devidos lugares Lilian Dorighello

25 de julho de 2013

Os 100 primeiros dias

Hoje, sei que a maternidade foi o que de melhor poderia ter acontecido

Eu esperei praticamente um ano para conseguir engravidar. Nunca tinha tomado anticoncepcional por ser muito sensível a sua composição e por ter efeitos colaterais pesadíssimos. A falta do uso da medicação me dava a certeza de que seria um “pulo” engravidar. Ledo engano. Quanto mais o tempo passava, mais ansiosa eu ficava e lá vinha a menstruação – implacável. Eu me sentia a pior das mulheres. Vinham cobranças de todos os lados – familiares, colegas de trabalho, amigos próximos, amigos nem tão próximos assim e, do pior deles – eu mesma.

Para agravar a angústia, estava num momento profissional delicado e tinha duas opções – ou engravidava, ou dava uma reviravolta profissional. Só que eu me esqueci por quase um ano de que eu era um único ser. Que o pessoal não podia ser cartesianamente separado do profissional, e que enquanto eu estivesse com a ideia fixa de engravidar, dificilmente outras oportunidades profissionais rolariam – por exclusiva responsabilidade do meu inconsciente.

Pois bem, todo mundo fala que quando menos esperamos, o universo faz sua parte. Comigo não foi diferente. Quando eu já tinha desistido de tentar e decidido dar outro rumo a minha vida profissional, a Olívia foi concebida. Fui tomada por uma alegria tão grande, tão grande que quase se igualou ao medo que veio junto…rs.

Minha gravidez foi relativamente tranquila. Tive poucos percalços decorrentes do ganho de peso e do alto estresse do trabalho. Com tantas mudanças no corpo e com tantos medos sobre o que vinha pela frente, não consegui me conectar com minha bebê desde a barriga. Claro que a conexão per si sempre existe, mas não conseguia conversar longamente com a barriga, cantar para ela, e todas essas coisas. Eu achava até um pouco estranho quando ela mexia….e olha que a danada mandava ver, viu!

Quando ela nasceu foi que de fato senti o que tantos autores chamam de vínculo mãe-bebê, de amor fundamental, de instinto materno. Virei bicho. Queria ficar grudada na minha cria todo o tempo. Só que não tinha ideia do quão exaustiva era a rotina da mãe leoa. A gente ouve as mães falarem sobre o trabalho que um bebê dá, sobre as noites em claro, sobre o cansaço físico. Mas, a realidade mesmo, o cansaço que te desorienta, você só conhece vivendo os famosos 100 primeiros dias.

Falar desse período é no mínimo contraditório, porque enquanto eu sentia a tal plenitude que a maternidade nos dá, sentia também um desespero avassalador. Confesso ter sentido, sim, vontade de sair correndo e de sumir no mundo. Várias vezes. Confesso ter chorado de desespero e de dor nos olhos por falta de sono. Confesso quase ter derrubado a Olívia dos braços por exaustão. Confesso ter sentido um medo tão grande de perder aquele ser tão frágil, tão pequenino que só de lembrar da sensação me falta o ar. Sem exagero.
Olhava para o lado e via amigas-mães sorridentes, plenas, serenas com suas crias nos braços e pensava: “como?”. Como é possível elas estarem assim, tendo passado por esse turbilhão de emoções, por essa carga tão pesada? Eu não me conformava, me sentia um E.T. e uma péssima mãe por deixar esses pensamentos ocuparem a minha mente.
O que eu não sabia, é que esse turbilhão passa. Passa na medida em que passam as cólicas, o refluxo (no caso da Olívia), as noites em claro, os primeiros cem dias.

Os medos não desaparecem, não, mas encontram seus devidos lugares. As dúvidas, ah…as dúvidas. Essas continuam, mas aprendemos a lidar com elas de um jeito menos atrapalhado. O cansaço que enlouquece dá espaço a um cansaço relativizado, acomodado à sua nova vida. E o amor por aquela criatura que veio de ti, de tão grande e tão maravilhoso, encobre tudo isso com uma camada tão espessa, tão espessa que só você consegue saber o que um dia existiu ali.
Hoje eu sei que a maternidade foi a coisa mais maravilhosa que poderia ter acontecido comigo. Sei também que não é fácil e cor-de-rosa como muitos pregam por aí. De todo modo, entre o rosa e o negro, fico com o lilás. O lilás que me deu o maior amor que já pude sentir na vida.

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